Não me canso de te ver correr, suar. Também tu não te cansas de correr e de não me cansar. Assistir ao esforço físico que já não pode ser o meu, pés e dedos dos pés estragados, usados e abusados, partidos por mim enquanto podia. E agora? Vejo-te correr. Dois acontecimentos extraordinários, dois sucedidos conforme digo para rirmos. O mundo devia ser assim. Divertido. Escrevi. Imagina-me juíz, no meu nobre cadeirão superior a olhar para a advogada e comentar: a senhora doutora dedica-se com muita alma aos assuntos como quem trata de esgotos e similares. Usa daqueles capacetes dos mineiros, do que têm a luz na testa para que se alcance o fim do túnel entra outros factos factíveis. Tem orgulho na sua profissão? Olha que agradável monólogo. Dir-se-ia que neste mundo toda a desobediência seria acarinhada. Principalmente todas. No meio das ervas molhadas, isto passou-se há pouco tempo, a chuva caía e os solos férteis davam-nos favas, ervilhas e feno, ali estava a testar a minha capacidade física das mãos, ombros, braços. Pois ao menos isso. Agora, estamos em período de seca e oiço-as: «Em Abril Águas Mil». Abril é o mês do António, como Março é o mês do António e Fevereiro o mês do António e Outubro o mês do António Rolo Duarte, o pai. O único a quem reconheço uma história, o andar de calcanhar no chão. Lamento esquecer-lhe a voz, a pouco e pouco deixo de me lembrar. A do António mano está tão presente como a do Pedro.

Portanto, corres, e eu não. «L’une chante, l’autre pas», conta a história de Pomme, amiga de Suzanne que se prepara para abortar. Não tenho agora presente a verdade do filme de Varda. Mas recordo-me de estar atenta a este universo feminino em que o filho não desejado é violento em contraponto com a doçura das imagens das actrizes. A mais nova de caracóis louros, uma anja; e a outra,fotógrafa e mulher de um fotógrafo que se suicida. Talvez seja. Não encontro o caderno relativos a estes anos de apuntes que levavam sempre um desenho. 
A questão é que me custa engolir um engano de 30 anos. Tanto tempo perdido. E não se corre atrás dos meses passados. 30 anos são 360 meses que são 131490 dias e representam 3155760 horas. Não me recordo de um só momento feliz, de alegria tirando este: ver-te correr e ela a crescer e a pisar as ervas molhadas. O que mais me impressiona é a forma como sou olhada quando conto a história toda, que a irei contar mesmo toda. Uma vez falei disto e como resposta tive: «estás a destruir a imagem que eu tenho do (...)» e contudo já não era miúda, mas adulta e mulher. A meu fraco modo, direi para não me impressionar, mantém lá o que tu quiseres, mas que a verdade é esta, ai isso é. Hoje percebi que vivemos uma grande mentira. O défice é uma mentira. Basta entrar num hospital para perceber as contas que essa gente faz e como as faz. As macas prolongam-se pelos corredores, os doentes fingem que dormem, eu finjo que os não vejo e fixo-me na memória da tua corrida matinal entre as ervas molhadas.

 

Quem utilizar um smartphone para acompanhar este trabalho não sabe o que perde. Tudo o que faço aqui, no computador, é para ser lido e vivido no computador. Um dia em livro. Sem movimento ou links. O retorno às origens. Em breve deixaremos de comer carne, abandonaremos os automóveis e seremos obrigados a decorar livros que recitaremos numa floresta.