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Quem é?

Somos

NÓS

cantoooores

os teus

e a porta abria-se. Entrávamos com as compras nos sacos e os sacos carregados de cenouras e livros, pianos de cauda, historias do sítio do picapau amarelo e em cada dia era sempre assim. A minha voz, era sempre a minha voz de canto coral e uma gargalhada de mãe doida. A tua mãe é doida, filha?
Que te posso dizer? Serei diferente do que sou e do que tu és? Uma mulher curiosa e cheia de curiosidade, ai que teimosa, digo-me e tu, mãe? E tu?

Ai, que teimosas! Por esse tempo havia um pai que resolveu desaparecer, entregar-se a outros paraísos fiscais e danos colaterais. Bela rima. Permites-me? É parvo, quem te deslarga é parvo, a morte, por exemplo, é muitíssimo parva. Portanto e recapitulando: havia tios. Há a avó sempre igual a si mesma. Ai que teimosa! Sabes bem que, de quando em vez, me zango contigo e como fico? Agoniada a fingir que danço flamenco. Mentira, enquanto não nos resolvemos, até dores de cabeça me atacam os pés. Fico de pernas para o ar.

Isto para te dizer que tenho uma palavra para ti. Aqui vai ela (não é minha, mas da Lídia Martinez)

PERDURAR. Não leias PENDURAR. PERDURAR E PENDURAR nas costas da cadeira, sempre largas, os problemas, os incómodos e abrir a janela para entrar o ar e sair o que trazemos cá dentro de casa, dos pulmões de leões e girafas. Neste Jardim Zoológico, gostaria que tivesses visto comigo e com a tua avó um documentário sobretudo sobre a terra das mulheres.

Os olhos delas escuros ou como os teus, de cor camaleão. Tem muita piada descobrir que junto ao mar vês assim assim e na montanha com outra cor que se altera e adapta conforme o ambiente. És um bicho, uma fêmea «chamada bicho». De pele queimada pelo sol e eu? No dia em que soube que estavas aqui dentro dancei com o cão Tim. Foi com ele que festejei o mais espantoso acontecimento. Como se desenvolve uma pessoa dentro de uma pessoa? E depois sai, e depois torna a sair ainda mais e sai e vai saindo sempre. Gosto muito de saber que sais. Não me custam as saudades. Talvez as tenha de uma forma que resolvo sozinha.

Parágrafo único: detesto que não me atendas o telefone. Ai, que teimosa! O facto de eu também nunca atender à primeira não interessa. É uma prorrogativa de mãe que devia estar consagrada no céu estrelado, porque o céu está sempre a estrelar. Nunca esqueças que para saber se o ovo está em condições tens de o pôr dentro de água. Se boiar vai ao ar. Não presta. Abri ao calhas um livro ao calhas e li o que te vou transcrever: «Ah, Desgraça! Desgraça! De novo o trabalho da adivinhação médica me faz rodar sobre mim mesma. (...)» Quem é o autor? Se o souberes dou-te 20 euros ou um sabonete de leite de burra. 

Desejo-te que a vida te corra como deve correr. Umas vezes assim, outras assado. Desejo que realizes filmes. Leves o tempo que levar. Desejo que ames quem amas. Desejo-te cães. Desejo-te gatas e patas. Desejo-te liberta de tudo e de todos. Até mesmo de mim. Desejo-te sobretudo que sejas digna, recta. Que digas o que tens a dizer sem ofender e se ofender? Tant pis. Desejo-te uma casa muito tua, a cama larga, as tuas fotografias espantosas, os teus pequenos filmes-histórias. Desejo que o Godard seja teu pai. Desejo-te a Marta Argerish a tocar só para ti numa praia sem algas. Desejo-te que me trates sempre bem e eu a ti. Desejo-te canja para as constipações e espirros. Desejo que visites igrejas e acendas velas para o teu avô e tios. Não é preciso acreditar em Deus para apreciar a beleza deste gesto profano. Desejo-te amigos ternos-eternos. Amigas, amigxs. É isto? Desejo-te que te saibas defender de quem te ofender. Desejo-te boa comida. Bom soninho de noite. Desejo-te que continues a ler em voz alta as tuas palavras mesmo de outros. Desejo-te ventoinhas e aquecedores. Cachecóis e camisas leves, levíssimas. Desejo que adores o que tenho para te dar. Sem refilar. Sem teimosias. Ai, que teimosas! Ai, que teimosas!

 

11 de Agosto de 2020. Nasceste com quase 4 kg. O teu tio António brincou comigo, o tio Pedro telefonou-me e eu ouvi a voz da Elis Regina a cantar "Madalena".

 

Parabéns. Vou agora embrulhar algumas prendas secretas. Secretíssimas. 

 

Desejo que fales alemão e conduzas com precaução. 

 

Desejo que sejas desejada. Não como eu te desejei, claro. Ali na sala a dançar com o cão Tim. Meu amigo e confidente a quem deste uma batata frita.