Oblivion da Grimes. Não conta uma alegre história ou sequer bela como quem a compôs e lhe dá a voz e o swing todo. Boa para acompanhar os saltos, excelente para pensar. Não é pois indicada para mentecaptos. E quando a estes me refiro, penso em todos os que vivem a encolher os ombros. Sem dar luta a nada nem a ninguém. Sempre encolhidos com medo de levantar a voz. Com o ódio recalcado. Um país inteiro assim? 

Pontos importantes:
o meu chá matinal em bule impecável que dá para dois à vontade. Vai todo. 

Continuo a ler todos os livros de Direito que me foram destinados, incluindo os que recolho na reprografia vermelha. Sublinho, esqueço os termos exactos, volto atrás. Anoto tudo nos cadernos pretos. O dia, a hora, a aula, o professor ou professora. Larguei as aulas práticas. Detesto-as, excepto as de Economia que me são perfeitas. O professor jovem explica a matéria sem manobras, explica, explica. Estou feita se não responder, por esta ordem, à mais fácil das perguntas com a mais fácil das respostas:
Trabalho
Capital
Terra
3 palavras centrais nas nossas vidas e eu que as usava sem lhes perceber o mais profundo sentido.


Continuo a dar-lhe na lei do divórcio, esse europeísmo que se nos entrou, Portugal dentro, como se este país fosse o da plena equidade. Não é. Dificilmente virá a ser. Desaparece a culpa deste negócio pessoal e consagra-se a vitória de uma espécie de vida cosmopolita onde as mulheres andam, ombro a ombro, com os maridos, ex-maridos, homens. Que sei eu? Nada disto corresponde ao que vejo em Portugal onde o maior número de mulheres se encontra no mercado de trabalho, mas com os salários miseráveis que não lhes permitem, em caso de divórcio, manter a casa, os filhos, a alimentação com o mínimo de dignidade, aliás, a dignidade foi-lhes arrancada. Ora se o conjunto de deveres conjugais se mantém e o legislador assim o pretende, por que raios se deixa cair a sanção? Ah, podemos finalmente partir para uma nova vida atirando o outro, a outra, para o mar dos lixos de plástico. É isto? É. A violação dos deveres conjugais pode continuar e dar-se a todo o vapor que, mesmo assim, o cônjuge que os viole pode ter o divórcio e com todas as vantagens, incluindo as patrimoniais. Alguém, dos partidos que aprovaram esta cópia traduzida e importada da civilizadíssima Europa estudou isto na sua complexidade? Alguém se deu ao trabalho de verificar que o desaparecido divórcio-sanção reaparece, mas de forma outra, atingindo em cheio a vida das mulheres divorciadas. As domésticas, essas de quem se diz: «está em casa, não faz nada» e cujo trabalho, porque o fazem e é trabalho não se contabiliza em tribunal. Mesmo que todas saibamos que trabalhando fora de casa, somos substituídas por exércitos de mulheres exploradas. A maior parte das vezes tão precárias quanto as patroas num ciclo infernal de fragilidades acumuladas. 

Alguém tem dúvidas sobre este cenário de vida em Portugal? A vida portuguesa. Imaginem as vossas avós, para irmos mais longe, abandonadas pelos maridos, sem conseguir fazer prova de coisa alguma e com filhos a cargo delas. Era assim, foi assim e assim continuará. O seu destino terá fatalmente dois rumos: ou é largada como um copo dos de plástico, sem préstimo ou aguenta um casamento por saber que sozinha não se aguenta. 
Este novo regime não promove a igualdade. Só alguém muito longe da realidade das vidas, essas que Maria Velho da Costa tão bem nos contou: «Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem.(...)» Este modo de vida ainda é a nossa vida. Mais bimby, menos bimby. Desaparece o afecto e o que sobra, ó Anália Torres, é a contabilidade. 
Era isto que se pretendia? Era. Quem não anda de autocarro, quem não tem dupla jornada, ignora as mulheres cansadas, fartas, as mães, as casadas, as unidas de facto, as mulheres dos sacos de plástico. As mulheres que se sentam e adormecem. 

 

Quid juris? Ide ler a lei, ide levar com a lei nas trombas, no dorso, nas costas.

Voltarei sempre a este Assunto.