Glícinia. Quartin. 

As minhas mãos ásperas de trabalhar, sem luvas, na madeira. Raspar, lixar, lavar a jacto, secar e aplicar a massa que irá rediviver o que parece morto. Pintado e repintado renasce da morte lenta a que parecia condenado. E as glícinias chamam-se todas quartin. 

os vasos libertam-se das flores de plástico que divertem. Fazem-nos rir do lado de fora. Quando se observa o jardim, tudo é cor e viço. Chinês da falsa, verdadeira alegria provisória. Assim, ando sempre atenta às variedades de viva planta florida que me interessam. Quando o Verão chegar em força algumas irão soçobrar se não as proteger do estio, vento quente, noites sentada nas cadeiras de verga. A mãe e eu, a Madalena, as três a  ouvi-la falar. A Madalena explica-se de uma forma encantatória. Enquanto desenvolve as ideias, cada palavra é mais certa que a anterior e a densidade da sua fala atinge-me e à avó que se comove, mesmo que habituada, por classe, a engolir emoções. 88 anos com marido morto e os dois meninos de partida para a ausência que nos transforma os dias. Viramos o tabuleiro e do sofrimento saem histórias, gargalhadas, memórias, melancolias. 
O cabelo cresce. Cabelão desordenado, ao  caracol sem sol. Que tempo de mierda. Todas as manhãs abro as janelas e vejo árvores, a gata menina Maria Paula, Rosa Luxemburgo, Douna Lé, conforme, observa junto a mim o céu. Sabemos se dá para uma corda de roupa ou, pelo contrário, se continuamos a tapar buracos nas madeiras já tratadas. Que me dizes? Mia, gata, mia gata e as duas brincamos deitadas na cama aos elevadores e montanhas russas. Recebemos uma encomenda de Quignards. Está quase completo e tanto te agradeço a ti com um abraço e muitos beijos. E a Despantes. Panfletária e direi necessária. Não existe em português e seria da maior utilidade que a pudessem ler. Não é mole para homens e mulheres. Os homens moles, coitados, com as suas mulheres enganadas, chifrudas a dormir, espera, continuo a pensar que provavelmente aliviadas da presença dos maridos: vai, sai-me daqui, vai chatear outra e farta deste sexo mecânico: abre as pernas, entras e depois ai ai ai e huuum hummm e isto que nunca mais acaba ou acaba demasiado cedo. Ora viva quem é uma flor!

As flores são como os passarinhos, com mil cuidados nos seus vasinhos. As flores medram.
A manhã começa com jornais. Rio que nem uma perdida com as opiniões redondas do Rui Tavares e etc que isto já enjoa. O Expresso vai quase todo para a reciclagem. Imaculado. Vou tentar convencer a mãe da inutilidade deste gasto. 
Todos os dias nascem polémicas e indignações. O jornal i que não vende um boi fez uma capa amarela com os nomes de todos os que votaram contra a despenalização da eutanásia. Na realidade interessava-me mais saber quem votou contra o aumento do salário mínimo para 600 euros. Não é por nada, mas os do salário mínimo estão vivos e a dignidade da e na morte é um paleio tão roto como o suicida entusiasta. Isto devia levar aspas porque é o título de um livro que me afrontava dias e noites. Lá estava aquela lombada a chamar por mim. Dries van Coillie e uma capa do Sebastião Rodrigues. Vai que o li. Passava-se na China comunista e era risível, a espaços. Ao tempo levei aquilo a sério e enervou-me. A eutanásia é uma vaca. Eu quero que se entupam com a eutanásia pelos ouvidos. A morte a pedido (mais correcto que morte assistida) é um acumular de burocracias tal que ao chegar o fim, já o fim se foi por fim. 

Este site é feito sem preocupações com smartphones. Não quero preocupar-me com o que não me preocupa. Quem quiser ver e ler isto em todo o seu esplendor que recorra ao seu iPad ou computador. Dispenso a fortuna e os amores ardentes, a fama e os livros publicados. Franklim, mai deer (veado) I donte give a dama. Percebeste?