A torneira misturadora. Espelho, bica recta.
- Quem a vai montar, sabe que não deve mexer muito nos canos      
- Eu sei. 
- Sabe. Quem a vai montar...
- Sou eu.
- A senhora?!

- Ora aqui estão os 35 euros...

A loja e os canalizadores silenciosos a olhar para ela. Saiu feliz, torneira, ou como ela dizia, «as torneiras» dentro do saco azul. Chegou a casa, retirou as antigas carcaças, esqueceu-se da água que haveria de espirrar por toda a cozinha. A gata molhada, ela a rir enquanto fechava «as torneiras» de segurança. Montou a coisa torta porque de origem torta, apertou à força toda e gritou: orçamentos grátis ou o caraças! 

 

Ela chegou a Lisboa no dia 10 de Outubro de 2012. Umas malas sem história, no aeroporto, a mãe e o irmão à espera. A filha apareceu mais tarde e se ela chegara cansada é porque estava cansada, há 30 anos cansada de tudo e nada. Fizera uma descoberta danada. Uma parvoíce, um deslize prolongado no tempo sem sentido que fizesse sentido. Cansada e casada. Duas palavras parvas que fazem um twin set.

 

Os telefonemas anónimos haviam começado há meses e resistira que nem mula. Mailes anónimos. Mensagens anónimas e quando ela dizia anónimas deveria ser precisa e acrescentar o nome que fora inventado para a incomodar, para a empurrar de onde estava para longe dali, diz-se, de lá. 

O ano de 2012 passara-o a ver passar. A ler, a dar voltas na cama, a vomitar. Dores de cabeça lancinantes, a cabeça abismo, as mãos abismo, o corpo a cair pesado no chão. Que lei da física explica que uma peso-pluma se torne elefanta, mamuta, uma montanha K2. Torre de belém arrastada, os jerónimos e os casamentos nos jerónimos. Pianos, choviam pianos e grossas cordas de navios. Era o que ela dizia a rir enquanto espreitava pela janela. Ah, a neve. Ah, o calor e cega ela queria, sei lá quê desejava. Uma grande vaca. 

Maneira que sei contar quase tudo relativo aos telefonemas anónimos que continuaram durante um ano e meses, comunicação anónima produzida por burros, animais de carga, bestas quadradas. Pode falar-se assim do que existe para dar cabo da cabeça ao outro? Do que moi e moi diz-se pior porque pesava na cabeça às voltas, zonza. 

- O que vem a ser esta cozinha toda suja, um tipo chega do trabalho e encontra a cozinha toda suja...

- Repete lá isso outra vez que não te ouvi bem?

O professor era de uma simpatia delicodoce e entusiasmada para todos. Excepto para ela. Com ela, a cara trombuda, os olhos virados para o televisor, os olhos quase fechados: ó-ela-tu-não-existes. A especialidade perversa dos fracos consiste em retirar ao outro a sua presença total. Com uma borracha gigante, das de tinta e lápis, apagam-te, apagaram-na. Tudo canja e discreto, sem testemunhas. As moscas não contam. Nada que se passasse à frente de quem tinha olhos na cara. À excepção dela, dele, o professor e de uma outra pessoa. A violência, porque o silêncio de quem não ouvia, fingia não ouvir, é violento: tu-ó-ela-não-existes. 

- Vou sair. Não sei a que horas volto. Batia com a porta para quê? Para que o barulho a tornasse ainda mais prescindível: ó-ela-tu-não-existes.

 

O edifício perverso tinha já as fundações, os leões, os corações todos assentes. E ela para ali deitada, levantada, a calçar as botas, no meio da rua, a fotografar prédios e folhas, pessoas de todo o mundo, umas mais parecidas com outras e outras iguais a ela. 

O professor voltava quando lhe apetecia. Deixava-a para ali, pobrezinha, numa consumiçãozinha coitadinha. Ela lia, dormia, respirava, seguia as greves gerais pelas notícias. Dorida. E repontava. Não havia ácaro que lhe ficasse, a ela, preso na garganta até ao dia em que a voz, a dela, lhe parecia demasiada para aquele espaço e só o corredor media 25 metros. 

Naquela cidade existia uma rua nova. Era dela. Agarrava no saco, nos lápis e em cadernos e escrevia no café com vista para as pessoas vistas de cima. Frequentado por árabes, ela era irmã delas. As Fatmas mudavam as fraldas das Fatmas. Fatmas por todo o lado.

Durante um ano, mais que um ano, recebeu mailes anónimos e ainda os do marido da amante do marido dela. Lia aquilo sem perceber o que lia. Uma vez respondeu que aquele assunto não lhe dizia respeito, apenas na tentativa que a deixassem em paz. Não a largaram. Carraças, agora é que a palavra se aplica. As carraças. 

Quando pedia ajuda ao marido, o professor não respondia, fingia que não a ouvia, semicerrava os olhos e mentia. Virava tudo ao contrário: ó-tu-ela-não-existes-estás-louca. Que não estava. 

De resto, a mentira vivia do lado oposto da verdade e a verdade é que o professor alegre, comunicativo que todos conheciam era, em casa, um homem macambúzio, execrável, para quem o mundo devia muito dinheiro e a porcaria do mundo que lhe não pagava. Assim parecia pelo ar, falar, ar e falta de ar. Uma vez faltara-lhe tudo a ele e ela saltara do automóvel a pedir ajuda a uma mulher que vinha em outro automóvel e ainda numa via rápida fora ela a chamar pela ambulância.

Era ela quem arrumava, limpava, dava de comer, organizava, trabalhava desde que começara a trabalhar. Que nem uma louca. Sem horas e com o peso da responsabilidade do trabalho vulnerável: à vista de todos as palavras dela, criticadas tantas vezes quantas as que ela criticava e ainda os desenhos, as ideias, as pinturas. Na cabeça dela as ideias saltavam.

Na cabeça pobre do pobre professor nada de relevante se via para além do futebol, das cervejas e de um doutoramento perdido algures. Teria acabado aquilo? Ela ajudara-o e muito no mestrado. Emendara frases inteiras e fora assistir à defesa do opus. Ensemble. De flor rosa na blusa branca, os cabelos soltos e orgulhosa do que lhe parecia ser inteligência. E talvez fosse. 

Quando se decidiu com as malas fora dali, coisa pouca, deu-se o que se designa por «abandono do lar» o que não significa mais que sobrevida. Na verdade, abandonada estava ela e o lar não era lar mas um tormento. Uma dor e um pavor. Tão simples como uma rima fácil. Mais duro que um osso duro de roer. Largou aquilo porque até a porcaria da casa, do «lar» lhe dizia: vai-te-embora-ó-ela-tu-não-existes. Deslarga-nos, mas também: salva-te desta mediocridade toda. E os mailes anónimos continuavam e os telefonemas para aquele telefone que só o professor tinha, ora se continuavam e viriam donde, não se sabe. 

Quando pedia ajuda ao marido professor, esta chegava quando chegava, quando lhe apetecia a ele: ó-ela-agora-esperas-até-eu-querer. Desde 2012 até hoje nada de nada do que também lhe pertencia foi deixado à vontade e direito do seu olhar. O olhar dela. Nada. Tudo o que pediu, do que se lembrava lhe foi entregue quando calhou. Por azar. Par azar. 

Sentada no tribunal percebeu que a justiça, as leis, o ritual das pessoas entre pessoas não é para  respeitar. Até hoje espera que o homem deixe de ser dono do seu universo único feito de livros, desenhos dentro de livros, o livro de culinária que a autora oferecera à mãe e um outro. Presente da filha. É tudo simbólico e ela e tu, nós vivemos disso mesmo. Quando estes casos chegam aos tribunais são aos milhares, tornam-se almoços engolidos à pressa. Ganham um estatuto de banalidade do moderno quotidiano. Quando estes casos chegam aos tribunais há razões fortes de perda que os levam até ali.

A questão é de dignidade. De respeito. De dignidade e de respeito. De dignidade e de respeito. E assim repetido até se acabar o tempo em que essa perda tem de ser explicada como um roubo. Aquela pessoa que está sentada do outro lado é um ladrão de dignidade e respeito. Roubou. A que preço está no mercado?.

Há um retrocesso na vida das mulheres que as deixa entregues às mãos dos homens, podem ser professores de uma simpatia avassaladora para todos, excepto para elas. E para as filhas, filhos que ignoram a não ser que as filhas, filhos os não ignorem e incomodem os senhores numa inversão de papéis arrepiante, de dar vergonha aos cães. Não é assim que se diz: nojo aos animais. 

Alguém põe ordem nisto? Se o caso vai parar à justiça, cabe à justiça dizer-lhe a ela: entrego-lhe a sua dignidade. Encontrei-a, está aqui.

Ao que ela responderá comovida:

- Muito obrigada. Não imagina a força que fiz para a não perder. Não supõe a força de toneladas, dentro daquele mar tão sujo, a nadar, a segurar essa tábua de engomar da dona de casa e mãe de família.

 

Até hoje ela espera que lhe entreguem livros e duas cadeiras. Não se recorda de nada sem se obrigar a descobrir em fotos antigas as canecas tão bonitas que comprara, tachos e panelas, almofadas, lençóis. Coisas sem importância alguma não se desse o caso de representarem a vida vivida, apenas com esse gosto, esse prazer. 

 

Ao longe, o professor continuará, sedutor, a mostrar a sua gratidão e simpatia para todos. Ela não se recorda do dia em que lhe tocou do mesmo merecido sorriso e mesura. 

 

Não há vida como a de solteira. Se ela soubesse o que a esperava, se em atrasado ouvisse o pai, teria parado a tempo de ser astronauta, bailarina, veterinária, mulher de leis ou a senhora que entra na loja dos canalizadores silenciosos e responde: aqui quem monta as torneiras sou eu.  

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