Esta página foi inteiramente fabricada

a pensar no Pedro.

Tudo aqui é um ele que guardo como nosso.
Pedro Manuel Madeira Rolo Duarte

Foi a mãe quem sempre guardou as nossas fotografias. Muitas imagens arrumadas em ábuns por/para cada filho, o pai Rolo Duarte e a Maria João.

Nesse dia, transportei os álbuns, pesos pesados, para cima da cama branca e aí sentada ouvi-nos a rir, 3 irmãos patifórios, vi o pai a ler o jornal antes de todos e a mãe entregue às suas científicas teorias: «claro que me dói a cabeça, ainda não fui ao café».  

Descobri então A Fotografia marcada Verão 1972. O Pedro em tronco nu, cabelo desgrenhado na quinta da senhora dona Olímpia. O corpo confunde-se com as folhas, troncos, ervas, terra e o chapéu de palha da nossa mãe,  de todos. Que sei? É das mais belas imagens que uma criança pode ter. A sair de dentro do paraíso, pleno Agosto, calor e a Natureza doida que lhe pertence. 
Agarrei-a e o tempo que levei a observá-la foi muito, agora anda comigo. Há histórias, memórias, memórias reificadas que acarinho.

O Pedro feliz. Atitude desafiante ou apenas o Pedro carinhoso, que o era. Sentado ao colo da mãe inventava formas de dar beijinhos com formas. Isto mesmo. 

Devo ter sentido ciúmes do Pedro e do António, e cada um do outro cada um, à vez ou todos em guerra pela atenção individual a que temos direito. Pobre pai e mãe?

Sermos irmãos foi o melhor que nos podia acontecer. Durante anos não percebi nada disto. Quando me obriguei a pensar, descobri esta fotografia, claro, e uma infindável ternura pelos irmãos, manos tão distintos na forma de estar, mas nem tanto no ser. As guerras, partilhas, sacanas dos irmãos e a mana vítima aos gritos. Fiteiros todos nós, porque crianças felizes, aprendemos a abrir o nosso lugar no espaço da família porque o coração dos pais é um mistério. Há um egoísmo saudável que nos faz desejar a pertença dos pais apenas para nós, está lá em cima explicado. Eu sempre fui a mais lenta a perceber tudo. Lia demasiado, estava sempre a ler e a mãe protegia mais o Pedro do que o António e eu. Ambos também protegíamos o Pedro. Percebo agora que ele nascera mais fraco. Fisicamente. 

 

O meu irmão Pedro é, será para sempre o que emerge da Natureza e com ela se confunde num sorriso largo de satisfação. Estou a ver isto, a escrever, reler e a pensar. 

 

Havia tanta injustiça sentida entre nós? Claro. As famílias saudáveis têm este funcionamento. Pais injustos eram pregos cravados nos nossos corações a sangrar. De parvoíce, bem entendido. Pais justos quando nos observavam a dormir. Seria? E uma forma brincalhona de estar. Digna. Isenta de hipocrisia. Pais justamente preocupados com o futuro de cada um de nós, pais como estes a pensar se encontraríamos a pessoa certa, no sentido da alegria, sempre neste sentido e do que é digno, sempre a dignidade, a honra. Esta palavra era do pai. Usava-a para explicar tudo. E o que ele torceu o nariz às nossas palermices de independência e com quanta razão. Cada um de nós encarregou-se de escolher os piores companheiros perante a plácida incompreensão do pai, especialmente dele que segundo reza a lenda dizia e repetia: mas o que é que lhe deu? E esta regra aplicou-a a todos. Não se faz segredo de uma verdade verdadeira.

 

A do Pedro, para sempre a do Pedro, em nosso entender familiar era, será a G com o seu filho F, agora adulto, que vimos crescer. Lamentei muito quando acabaram. Nunca percebi ou sequer perguntei por nada. 

 

Bom, bom. Os passeios pelos caminhos escusos da Serra de Sintra, o Juca cão abria caminho e voltava sempre para junto de nós. O pai caminhava com a sua bengala tradicional. Como um chapéu de chuva sem a chuva, apenas o pau de onde nasceria a protecção. O pai era o protector das nossas aventuras e arranhões, quedas, feridas, a mãe atrapalhava-se e dava mimos. Três crianças no Verão e ainda o Luis, filho da senhora dona Olímpia e do Zé de Castro. Especialista em serra de Sintra e lutas de ameixas podres contra os franceses em férias. Levavam tantas, mas tantas.

 

O pai morreu e a família sentiu-se perdida, só. Eu via o pai vivo em todo o lado. O António morreu e no chão abriu-se a fenda de onde se viam as entranhas. Cobras, linces, bichos? Não. Apenas o vazio da ausência do melhor de nós. Do mais bondoso e criativo, divertido. Enquanto crescemos fomos perdendo tanto e esse tanto éramos nós magoados com as mortes. As mortes, dizia, repetia: discordar das mortes para me provar a inutilidade de tudo quando a perda inevitável leva alguém «desta para melhor». Dizemos para nos consolarmos da desgraça desta vida quando morre quem se ama. 

 

O Pedro adoeceu muito antes de adoecer. A cara do Pedro não era mais a mesma saída da Natureza. A maior parte da vida do Pedro levava-o de ar sério, grave. Com a morte do nosso pai, foi a mãe quem lhe pegou na mão ainda jovem e o levou para a televisão -- a sua rampa de lançamento --, porque todos nos pegávamos uns aos outros, e a mãe ajudou o Pedro que me ajudou a mim que ajudei o António que nos ajudou a todos. Vivíamos num círculo de entre-ajuda até o Pedro se sentir destratado pelos jornais que amava. Dispensado enquanto dizia: «eu nasci embrulhado em papel de jornal». É uma ideia belíssima e certa. De nós, foi ele o jornalista com a nossa mãe de amparo. Sempre. Lia-lhe as prosas, emendava aqui e ali. Cada um de nós sabia/sabe muito bem o que a mãe e o pai fizeram e o que cada um fez pelo outro, pelos outros. 

 

O Pedro morreu de cancro? Nunca perceberei nem quero perceber. Sei que por vezes olho para o mail e leio-lhe palavras amargas e outras menos. Mas não mais voltou a ser o Pedro saído das folhas e dos troncos, o Pedro desafiante feliz na terra, da terra do Agosto em Sintra.

 

Verdade? Não. Tenho aqui guardado um belíssimo recado do Pedro para mim. Não o revelo. É meu. Aqui resiste um pudor de que nunca prescindi ou irei chutar para canto. 

 

O Pedro morreu e eu que o visitei clandestina sem o carimbo prévio da sua guarda-pretoriana. Ia daqui e parava à porta daquele hospital. Entrava sem me apresentar, sabia onde estava o Pedro que, por vezes não estava. Sentava-me a ler e esperava. Era sempre justificadamente antipático e adormecido, esquecido. Desmemoriado. Voltava eu para casa e olhava para os olhos mudos da nossa mãe: «o que fazemos, vamos lá? Telefono-lhe? Não sei mãe, não sei. Vamos esperar. Na manhã seguinte desaparecia na camioneta e cumpria o ritual. «Sais ao teu pai«, diz-me a nossa mãe e eu levava aquele olhar dela comigo. Por vezes ficava a observar o céu hospitalar, os corredores. Estava sempre a desinfectar-me. Fotografava a azáfama ou o silêncio, as camas, A Cama. Tenho centenas dessas imagens guardadas. Só eu as vejo. Só eu sei o que me custa vê-las e portanto evito-as. 

 

O Pedro morreu e apareceu nas televisões e nos jornais. Driblámos as revistas cor-de-rosa que o Pedro lia, oh tanto tempo perdido, e se procurarem a nossa mãe pois não aparece em nenhuma. A Madalena e a Maria alimentaram-nos. A Inha foi a amiga na hora certa enquanto eu via o Pedro morto na sua cama de morto, expressão de tranquilidade, quase, quase a mesma em que se mistura, tronco nu, com folhas e ervas.

Falei com ele sabendo que me não ouvia. A irmã doida, dorida, o corpo todo dorido. Nem uma lágrima. Se chorasse como poderia apoiar a mãe? Encontrei de caminho pessoas que nem lembro. Eu queria ver o meu irmão das ervas, o meu mano feliz das recordações do Verão. E ali estive e ali lhe fiz muitas festinhas. no cabelo encaracolado e bonito. 

 

O Pedro morreu e nos rituais de passagem da vida para a morte estava confusa, dividida entre a dor incomparável da nossa mãe, entre nada de tão forte, como se pode medir a força? Como se vê morrer dois filhos? É o inominável, a crueldade. E ali, dali, entravam e saíam pessoas sem sentido algum. Tudo aquilo num vaudeville infeliz. Em semi-círculo estavam pessoas à volta da caixa-caixão, uma delas lia um papel e chorava. As minhas lágrimas que as não tinha para mostrar. Levantei-me e não sei o que disse para aquelas pessoas, falei de fora para dentro da encenação com lugares marcados. Estava cansada, farta, triste, pasma, a sentir a falta das minhas viagens clandestinas, de o saber por ali naquele sítio onde me desinfectava. Lembrei-me do Pedro comunista, o Pedro que perdeu o ano por andar nas militâncias, olhei para o sorriso triste da mãe e continuei confusa, a recordar os deserdados que nos batem forte cá dentro. Sempre bateram. Uma coisa certa: sabia que o que eles sabiam não era nada do que eu sabia. Estava de rastos e apenas os que bem me conhecem o sabiam. 

 

O Pedro era melhor que eles todos e eu nunca fui capaz de lho dizer? Disse. Está aqui guardada a nossa troca de escritos lame lamechas lindos. 

 

O Pedro comunista estava tão próximo das ervas. Quando crescemos perdemos a graça. Vamos empobrecendo mesmo que imaginemos o oposto. Não que a velhice nos triture. Eu senti que o Pedro foi perdendo o brilho, o entusiasmo.  

 

O Pedro morreu e eu uso o Jameson nos cozinhados. Não discutiremos mais como sempre discutíamos. Aos gritos, sicilianos, irados e depois inutilmente magoados. Não fui só eu quem se excedeu. Mas o Pedro morreu e eu estou aqui.  

 

O Pedro morreu e escreveu um livro. Li na diagonal. É um livro sobre o nosso pai. Talvez um dia o leia porque sei que há uma parte substancial, alegre, vivaça do Pedro que só a nossa mãe e eu, em parte a Madalena, recordamos e sabemos de saber na vida vivida. Para quê ler sobre o que a nossa memória sabe tão bem?  

 

O Pedro morreu e faz anos no dia 16 de Maio. O mesmo dia em que morreu o nosso avô a quem chamávamos avô.