A mão velha de Varda

e em baixo

o momento em que ela levanta o cabelo

e mostra as raízes brancas

Inventário.

Míope, astigmatismo elevado, concentrada, queria a imagem directa e direita. A cicatriz na sobrancelha direita veio de um cão. Acima do lábio, igualmente do lado direito, outra cicatriz de cão. Não tenho medo de cão algum e, de facto, aqui em casa mora um cão e em outras casas houve cão. 

Se bem reparo, vejo as raízes brancas dos cabelos castanhos muito escuros. Compreendo todas as mulheres que a partir de determinada idade passam a loiras por menos trabalho a esconder a idade. Nunca serei loira. Esta página não corresponde ao fishing for compliments. É um piscar de olho ao plano em que Varda levanta o cabelo preto e mostra os brancos já muito brancos. Les Glaneurs et la Glaneuse, vi-o acompanhada pelo José Virgílio, coitados de nós, e senti quão forte é a presença da língua francesa na minha vida. O francês de Varda não é o parigot porque mesmo sem que ela o queira, mantém a cadência do falar belga. Uma lentidão musical que termina com "hã" que não o nosso "hã?". É um som engraçado, uma forma de fechar o que se disse. Recordo que saí da sala do morto King cheia de vontade de falar francês. Mal adivinhava que tempo depois teria ocasião de o exercitar, no início com todas as hesitações do universo paralelo, e mais tarde na aisance normal do dia a dia.
Um dia em
Sintra, dentro de um caixote junto do grande e horroroso contentor do lixo viviam livros deitados ao Deus dará. Facto sem importância não fora um exemplar, que guardo não sei precisar onde, de Elias Cannneti, «Le Territoire de l'homme». Sei dizer que Elisabeth de Fontenay, a senhora do grande volume «Le Silence des bêtes», abre inúmeros capítulos do livro com citações de Canetti. Esta, por exemplo, vem antes de «Propre et Figuré»: «La terre abandonnée, surchargée de lettres de l'alphabet, étouffée sous les connaissances et plus aucune oreille qui soit à l'écoute dans le froid.» 

Espera. É o que esta imagem significa. 

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O velho argentino inventão Fogwill pouco antes da sua morte que recordo. Foi em 2010. Eu estava a ler o suplemento literário de um jornal francês e de repente percebi que se tinha ido este doido. Mais tarde, num dia de calor medonho, encomendei Os Contos Completos de Fogwill e comecei a ler sem parar.

Contos escritos com mão de mestre. Cada descrição correspondia a uma sequência cinematográfica. Quando Fogwill descreve o «fiozinho de sangue», tu levantas os olhos para confirmar que o «fiozinho de sangue» está ali debaixo do teu nariz. Nunca leio para me encontrar, embora brinque: cada personagem devo sempre ser eu.