Meu querido, 

O colibri que hoje vi não tinha mais que a medida da minha pequena mão. É, pois, uma ave e nunca um pássaro. Uma vez emendaste-me e que fiz eu? Encolhi os ombros, sobranceira, ignorei a tua ousadia e deixei ficar pássaro e pássaro foi impresso e pássaro ainda se lê e quando leio? Desmancho-me a rir. O corpo abana, perde a força e podes tu fazer de mim o que queiras e que eu eu goste. Havia um lago pequeno com rãs e ambos não víamos senão os bichos. Narciso só depois, já o lago ficara para trás e nas bicicletas deste quase Verão em corrida, vamos-ver-se-quem-chega-primeiro, tu ficaste para trás, magro, és tão magro. Esperei na esquina da árvore grande à sombra a limpar o fio de suor que me escorria peito abaixo. 

- Vês como fui toda mordida por ácaros? 
- Vejo.
E assim ganhaste, indecente, a competição e quem canta é o hippie como nós dois hippies engraçados. 

Era esta a pequena história autorizada. Não há picardias entre nós? Não. E até isso me dispõe tão bem quanto o meu acordar a cantar, a falar, a rir, a redormir. E com fomes de leão. Tu trazes-me o pequeno-almoço à cama e eu num movimento desajeitado despejo o chá sobretudo. Sobre tu e mim e nós. E só depois te oiço a voz a ler Anatole France: «(...) La Vie en fleur conduit mon ami jusqu’à son entrée dans le monde. Ces deux tomes, auxquels on peut joindre le Livre de mon Ami et Pierre Nozière, contiennent, sous des noms empruntés et avec quelques circonstances feintes, les souvenirs de mes premières années. Je dirai à la fin de ce volume comment j’ai été amené à user de dissimulation pour publier ces souvenirs fidèles». Ouvi tudo agarrada à almofada bordada e ao som dessa tua voz colibri, pirosa comparação, sorri e adormeci. Mais uma vez. Ora lê-me tudo mais uma vez e farei a salada grelhada do tomate e da cebola. Prometido, devido, veneranda e muito obrigada sem ser uma obrigação.