David Foster Wallace lê «Consider the Lobster»

O Cão, a chuva e a nova coleira que previne a bruta força do animal. Corria, voava atrás dele e não raras vezes caí, tropecei em «pedras no caminho» que para escrever esta sequência usarei aspas. Não as aspas redentoras, salvíficas, espertalhonas. Apenas o piscar de olho a um poeta que nunca foi das minhas preferências. Um escândalo? Li-o de fio a pavio e talvez porque o estudasse mal estudado guarde uma recordação de coisa maneirista. Aqueles poemas simples, rurais; os Walt Whitman e no fundo a imagem do Prado Coelho a abanar a cabeça e aquele riso dele que dizia: rapariga, come chocolates, rapariga. E eu insistia: não gosto, Eduardo. Não me dá trabalho, leio a correr sem penar. E ele ria, mudava de assunto e aconselhava-me tudo menos linguística. Tudo menos isso que seca o que é espontâneo. Não por acaso, tenho exemplos vivos das ideias eduardinas, eduardianas, pradinas, pradonas. Saudades dos lanches de picardia na Versailles.

Páro já aqui porque nada disto serve para dizer que o conhecia e assim o trazer pendurado, enfim, ao peito, bolas. 

O Eduardo não lia inglês e um dia cheguei-lhe com o Foster Wallace e isto depois de o tentar com John Fante, que no meu entusiasmo apaixonado, romântico é o talento superlativo. O DFW: 

- É um génio. Há uns pedantes que o amam e não percebem um boi deste sofrimento todo. Há aqui uma quantidade de dor, é o que sinto. Eu leio-te um bocadinho e traduzo simultaneamente. 

E começara com este Consider the Lobster. Traduzido com os pés: Considere a lagosta na minha voz divertida, já a rir.

- Considere a lagosta?

- Sim, porra, é um texto crítico dos diabos. E já sem traduzir explicava que no Maine existia o Festival da Lagosta e que naquela região a lagosta e o turismo eram as práticas que uniam as pessoas já de si lagostas. E depois, com os meus gestos largos, falava da descrição do DFW sobre o trânsito nas férias. As longas filas de automóveis. Mas o que interessava era uma curiosidade extraordinária: até 1800 a lagosta era um alimento de pobres. 

- Não achas incrível? Consegues pensar na lagosta desta forma? 

E sem ouvir a resposta, e enxurrada de explicações misturadas com traduções atamancadas do texto, do pequeno livro nas minhas mãos.

A questão aqui é a ausência do meu interlocutor mais intenso e curioso. Adorava falar dele e que o ouvissem. Ouvia-o. Depois entregava-se de ouvidos à voz do outro. Saudades deste tipo. Nunca imaginei que fizesse tanta, tamanha falta. O Foster Wallace matou-se em 2008 e o Prado Coelho foi-se no Verão de 2007. É isto?

E ainda aqui do lado os livros do autor da Piada Infinita (andei a pensar na tradução de Infinite Jest durante algum tempo e não encontrei alternativa. Continuo a pensar que o pior nos livros das línguas estranhas são as traduções. Jest quer dizer piada, mas uma piada que alguém diz ao outro no gozo, de dar gozo assim: estás a gozar comigo! Perco-me nestes detalhes, picuinhices fatimais.) 

Alguns dos meus livros estão neste estado ou até piores ou melhores, conforme a sensibilidade para este assunto nada pacífico. Por vezes penso na minha filha e evito riscar, anotar, desenhar. 

No meio «My mother works so hard» é um poema dele. 

Estou agora a pensar na mulher dele, no coração. Chegar ao preciso sítio e vê-lo pendurado. Foi assim que se matou. Podia ter sido indolor, embora ninguém saiba quantificar a dor do suicida, especialmente se morre. 

Há quem associe a leitura exibida de Infinite Jest a uma insuportável snobeira. Pertenço a esse grupo. Imagino vernissages e finissages em Nova Iorque ou Tóquio e uma conversa minimal sobre «David». Curiosamente nunca penso em Portugal quando o assunto é pedantismo. Do que conheço, e nos últimos tempos conheci uma boa parte de grupos, tenho sempre a sensação de trânsito condicionado. Penso no rosto inexpressivo e rural do Rendeiro e numa infinita soneira que se me ataca e me afasta lentamente das pessoas até as deixar de ouvir. Diz-se dissociação eu prefiro aborrecimento.

 

Infinito.

Mas para que é que se publicam livros depois de estar tudo escrito? Tudo pensado. Depois de estar aqui a rever páginas e páginas, verifico que tem inúmeras notas e o título, caramba, deveria ser Considere esta lagosta. 

 

 

Durante as primeiras páginas destas páginas dei-me ao trabalho de acrescentar as ligações para as redes sociopatas. Agora deixei-me disso. Dá muito trabalho e nunca me pareceu bem a auto-promoção. Devo ser protestante. Sou protestante, claro. Ou Amish. Parece-me absurdo ser pessoa sanduíche. Quem quer ler, vem ler. Quem encontrar, encontra. Quem quiser, quer. Só é bem-vindo quem vier por bem querer. 

De todas as formas penso que ninguém lê ninguém porque cada um está ocupado e destinado a ler-se. Excepto raras excepções. Um dia, passou pela minha frente uma pessoa tão aborrecida quanto estranhamente medíocre, e digo estranhamente porque, na verdade, não o é, mas assim se comporta. Então, essa pessoa ocupou alguns dos meus minutos a tentar destruir o único livro que publiquei com perguntas insistentes e sobranceiras sobre esse texto esquartanhado que fala precisamente de cortes. Sei bem que não é fácil de perceber à primeira, encolhi os ombros e claro que esse foi o inevitável momento do corte a que estava destinada. Uma chatice que ainda me dá que pensar na facilidade com que perco o tempo que perco. Aborrecem-me as pessoas, com o maior respeito, mas aborrecem-me. Excepto, naturalmente, as poucas com quem troco valores nobres por valores nobres.