O sorriso vertical

Somos nós as mulheres mães quem os parimos, diz-se: dar à luz. Antes desse momento deseja-se «uma hora pequena». 
Somos três filhos desta mãe. Para lhe contar a história, só eu. A mãe baralha-se nas datas, mas é capaz de recordar detalhes engraçados da vida familiar, do Instituto de Odivelas, do primeiro trabalho na casa Grandella. Era caixeira, um dia passou o patrão e levou-a para o secretariar. Depois conheceu o Rolo Duarte, casaram e fomos nascendo os três, a espaços certos de 5 em 5 anos. A mãe trabalhou na Federação Portuguesa de Hóquei. E porque escrevia bem e dominava o assunto como ninguém, iniciou-se no jornalismo desportivo. A primeira crónica, foi vê-la a convite do director do jornal «Mundo Desportivo» (posso estar errada, a memória troca-me as voltas) e portanto a mãe foi às oficinas passou, ao salto alto, pelo olhar dos operários e nas letras de chumbo alinhadas reconheceu a sua escrita. 

Não é preciso muito para a mãe dizer com orgulho que nasceu no Seixal, que corria campos fora com os irmãos. Um deles, o seu mais querido, morto novinho. Mercedes, a mãe da mãe, nossa avó, era tão morena e baixinha. Pode dar-se o caso de vir dos lados ciganos. A mãe tem um lado poético, romântico, engraçado. Que o mantém. Foi jornalista com a carteira dela. Quem terá herdado o número da Maria João? Fez tanto. Trabalhou muito.  

Num dia de Inverno, foi-se o Rolo Duarte. Vivo e morto. Depois, numa Primavera, foi o António e por fim, o fim do Pedro. 

Não sei, não imagino, não desejo saber o que seja perder tanto num espaço de tempo curto porque nestes casos os dias encolhem com a dor. O sofrimento silencioso da mãe. As gargalhadas que dá, pois ri e nessa luz o que descubro é o sofrimento silencioso da mãe.

A mãe respigava nos campos livres do Seixal. Fruta, batatas. A alegria da malandrice infantil. Antes da invenção da adolescência. Antes de tudo. O que veio depois e que acima se relata, está no olhar melancólico da mãe perdida entre o que perdera. Pais, irmãos. Tios. Tudo morto. Tudo morto. Tudo morto. 

Quando passei pela livraria e vi a cara do Pedro num cartaz banal de publicidade banal a um livro banal, parei durante algum tempo, meia hora, talvez mais. Fixei-lhe o rosto, e eu nunca escrevo a palavra rosto, e o que vi foi o Pedro morto e o silêncio sofrido da mãe. 88 anos de vida, resistente, sobrevivente.  Ali, especada a olhar para o meu irmão. A reprodução de uma imagem do Pedro que aparentemente nos está a olhar, mas na verdade o que habita a ausência é um vazio. O Pedro deixou-se levar por nada em troca de nada. O meu irmão morto, duas vezes morto entre um cartaz que não irá perdurar, um livro que irá para as sobras. Há 3 mulheres Rolo Duarte. Minto. Na realidade devemos ser 4. Sorrio enquanto escrevo estas linhas. Somos 3 ou 4?

Há uma mulher Rolo Duarte: a mãe, a avó. 

Pelo respeito que se deve a esta Rolo Duarte, sou capaz de gritar. Viro fera ferina. Arranho. Aos meus 60, já levo a mantinha a Freud para lhe aquecer os joelhos frios dos invernos austríacos. 

Sei que a maioria das pessoas não sabe ler para além de si. Foram ensinadas a não ver mais nada. Falta-lhes fantasia e o silêncio da dor, o recato, o pudor. Tagarelas, mostram-se tagarelas. Não fantasiam, não nada. São pobres e nós que as sabemos empobrecidas. 

Quando defendo a minha mãe, com unhas e dentes, ou apenas a olhar calada, é o meu direito à fantasia que reclamo. Para não ficar triste comigo. Para poder perguntar pelo que sei: onde está a coragem de calar? De não contar. De ficar mudo. Quedo. Nem eu consigo, mas não perdi um filho, dois filhos. Não imagino e se me ponho a caminho desse trilho de montanha escarpada, paro. É insuportável.

As mulheres, as mães mulheres que perdem filhos. Quanto pesa a Lua? E o Sol? Quanto pesa a noite fechada, deitada, o corpo enrolado. Esse mesmo corpo de onde nascemos, a «fenda», «la sonrisa vertical». 

Éramos três. Sobra a do sorriso vertical que ri das baratas tontas. A família é o que nós quisermos, diz-se na ganga psi para aliviar a pressão. As mães que perdem dois filhos não têm direito a este luxo parvo. Pequeno. Diminuto. Encolhido. 

No meio do obsceno cartaz com o rosto do Pedro que olha para o vazio, resta-nos o nosso sorriso vertical. 

No dia 8 de Novembro de 1901, Jack London escrevia, uma de muitas cartas, ao amigo Cloudesley Johns. O início, considero-o, belíssimo e cito: «Claro que o pintor tem de deixar de pintar ursos, mas primeiro tem de reconstituir o seu itinerário e escolher a rota. (Diz-me, será isto, aquilo a que se chama uma metáfora mista?)» Não vou situar estas palavras no universo daquelas trocas entre dois críticos ferinos do trabalho literário. Não interessa.