Flores carnívoras e gente feliz com asma

Quantos livros da Ann Cleeves li e deixei em bancos, mesas e aviões? Nem muitos, nem poucos. Apenas alguns. Lia à mesma velocidade com que aprendi a ler a palavra toda de uma só vez, saltando o Bê a Bá como se fosse fogueira de Santo António.  Maneira que por conta do método global, creio que a designação se mantém, leio depressa e graças a mim, bem que de minhas sumas virtudes não guardo falso pudor. Sucede que no canal por cabo Fox Crime, um dos que mais consumo e me consome, dei comigo a observar a inspectora Vera Stanhope que me apanhou num ardil dos de coração. Caí de quatro por Brenda Blethyn em sincera mulher varonil, força de carácter, despego dos vulgares. Até fez estrondo. Vera é um portento que vai além da criadora Cleeves. Contudo, se a fama pertence à actriz, Northumberland acompanha-a sem desmerecer tal companhia. Os céus carregados de  Northumberland, os mares cinza, areias solitárias, as pedras de Northumberland e a casa da inspectora Vera: isolada na paisagem dramática, de cortar a respiração. Vera, Vera é gorda, mal vestida, saias fora de moda e botins sem graça. Vera não usa carteira ou saco. Tudo lhe cabe nos bolsos dos casacões, gabardinas e o cabelo de corte sem corte leva com um chapéu verde em cima. Nenhuma série policial lhe chega perto. De longe, talvez Helen Mirren dentro de  Jane Tennison chegue para o brilho de Brenda Blethyn. 

Este assunto dá-me trabalho. Observo os detalhes, das botas de Vera aos sapatos pretos de Jane. Das saias largas de uma para as saias travadas da outra. Uma linha as une: a de mulheres de uma inteligência única e intuição feita de experiência ou inata que arrumam a um canto homens que estão a seu cargo. Duas das mais importantes séries feministas. Assumidamente feministas. 

Em cima o cão do agora morto Francisco Nieva. Não vou certificar-me, mas não estarei errada se afirmar que nem um só jornal português se interessou por esta ausência eterna. Não cumpriram o dever de informar. Não porque a obra de Nieva seja de interesse universal, mas porque iria jurar que a ignorância nos actuais Órgãos de Comunicação Social é o que arrasta Nieva e tantos outros para a Net, para alguns de nós. Para quem se apanha a ler jornais de outros países. 

Os jornais, Deus, se o pai fosse vivo o que diria ele desta miséria que acompanho mês após mês. O Público vende 10 mil, se tanto. O DN anda pelos 6000. O Correio da Manhã caiu, mas basta um Pedro Dias e desaparecem as molhadas do único jornal realmente próximo das notícias de Portugal. Do que agita as pessoas, incluindo as que conhecem o Pacheco Pereira porque habitam na Marmeleira. 

Há aqui um cheiro a morte lenta. A TAP oferece o DN para iPad e exibe no seu título um divertido DN.PT. A ver se pega. O Expresso tem tanto interesse, mas tanto interesse que parece deitado à sombra da bananeira dos outros. 

Hoje li no DN a entrevista a Rita Ferro que, Natal oblige, tem um novo romance, livro, novela, ensaio -- não sei, não me interessa -- e de tudo o que já sei de centenas de entrevistas iguais, com as mesmas perguntas de sempre conseguiu arrancar-me uma gargalhada ao afirmar que o apelido do seu avô ainda os ameaça de morte e isto tudo porque um senhor, algures num local qualquer do país, lhe terá dito: "é a neta do fascista" que para a Rita Ferro nunca tal existiu em Portugal porque fascista era Musssolini sem esquecer os facínoras ditadores comunistas. Bom, uma vez chegada aqui, fechei o jornal, agradeci a amabilidade nada amável do senhor idoso antipático que está sempre a repreender-me porque não lhe entrego  jornal como se eu não o tivesse lido. Encolho os ombros, peço muito desculpa e lá o vejo com a lupa entretido a tomar nota do que o mundo lhe reserva para o seu dia acompanhado por meia de leite e uma merendinha, creio ser merendinha. 

As luzes de Natal já dão o ar da sua graçola à Casa. Andar debaixo de terra continua a ser, apesar das 3 carruagens a forma mais prática de correr por Lisboa. Ainda não percebi o que devo vestir no dia a dia. Se mais assim ou mais assado. Ainda não comi castanhas. Ainda não deixei de ter dores de cabeça alucinantes. Ainda o Cão me acorda teimoso por volta das 06:30 da manhã. Ainda as hortênsias dão flor. Não resisto a explicar que as hortênsias pertencem ao restrito clube de plantas saxífragas.  Ah, pois, plantas que se destinavam a dar cabo dos cálculos da bexiga. Juro que é informação científica. (Sim, ando a ler sobre estes assuntos carlovingianos. 

Ofereci uma preciosa edição de Húmus do Raul Brandão a quem não a merecia. Lembrada disto procurei na inferNet se ainda havia Húmus tão belo quanto o outro. Encontrei exemplar tão bonito, capa e tipografia tão perfeitas que esqueci a primeira parte desta nota. Como é possível um livro fazer-me do dia triste, o dia bom?

No Ípsilon deste sábado, dia 11 de Novembro, o Augusto M. Seabra dedica-se a estraçalhar o Lisbon & Estoril Film Festival. É divertido ler-lhe a prosa porque entra em contradição por todo o lado e mais algum. Casca na retrospectiva Godard e aplica-lhe uma "ética de dar a ver filmes" como se no seu texto não se lesse em letras garrafais uma ausência de ética crítica. Vamos aos números? Em 2010, o Lisbon Estoril Film Fest teve 28 mil espectadores; o Doc Lisboa somou 37 mil e o Indie alcançou 44 mil e 3 adeptos da coisa (sim, 44 mil e 3, é o número). 

Qual a dor do Augusto M. Seabra? Para além da "presença dos edis" no LEFF os números, senhores, os números perturbam-no e como as dores não têm ética vá de ignorar os parceiros do DOC Lisboa ou do Indie (afinal que importância tem isso quando se pretende arrasar o que Augusto pretende arrasar?)

Ao que importa: as luzes penduradas na porta fazem-me voltar atrás no tempo em que o pai inventava histórias, o mano velho gozava, repentista, com os A. M. Seabra deste mundo com uma graça que nunca terei e pronto.

«Vão lá pedir sinceridade ao coração!»