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Vou dar um exemplo simples: a editora Cotovia era das minhas preferidas. No interim desapareceu quem lhe dava corpo. Edições cuidadosas, mais que cuidadas que gralhas já as tenho para aqui assinaladas. Não interessa. Leio hoje que a Cotovia continua com uma editora associada, uma marca, para ser moderna que se lhe cola. Chama-se Tia Mira. Porra! Disse. Tenho aqui o «Bestiário Encantado» de Maurice Genevoix. A versão francesa perdeu-se nos caminhos por onde se perdem livros, casacos, meias e papelinhos. Nos divórcios, mudanças de casa, ex-maridos que vá-se lá saber porque ou por que foram maridos. Dá-me para rir este detalhe. Por que raios casei com quem não devia. Ninguém me avisou que o não devia fazer. Todos se calaram. Digamos que se falassem daria no mesmo, ou pior. Isto para concluir que a minha cabeça funciona em camadas, múltiplos assuntos que se cosem uns aos outros. Uma enorme manta colorida de imagens e pessoas que são imagens e palavras que dão imagens. Vozes. Também existem. Por exemplo a imagem do rapaz Black Mamba acompanha-me e gosto desta companhia. É um rapaz muito giro.

O Daniel Jonas também é lindo de morrer que é a única forma decente de se falar de alguém nascido sob a forte influência da beleza. Mas juro que já li «lindo de viver» o que me deu para rir, mais uma vez a necessidade de se distinguir aquilo daquilo. As pessoas e os seus merdelins. A nossa família tem uma notável biblioteca construída pela mãe. Sempre foi ela quem comprou os livros, as edições que agora são primeiras edições dos portugueses romanceiros e poetas. Percebem como tudo encaixa? Devo ser um mecano.  

Durante anos pensei que viajar era uma forma de enriquecer o património intelectual. Hoje penso o oposto. Detesto a ideia de viajar, odeio turistas e sentir-me turista ainda me é mais excêntrico e odioso.

 

Este ano morreu o meu irmão Pedro.